Vi o filme, antes do livro. Foi pelo filme que fui atrás do livro. Eu tinha visto já A Falecida e esperava bastante de São Bernardo. Confesso que não pegou meu coração quanto o primeiro, mas a construção do filme é muito interessante. Agora termino o livro. Lembro-me que no filme não percebia razão para o ciúmes de Paulo Honório, mal percebi o ciúmes. A literatura, porque nos dá com palavras o que imagens dão com certa ambiguidade, deixa claro este ciúmes.
Mas mesmo que o livro seja em primeira pessoa, escrito por alguém que diz que quer por as lembranças em ordem, porque sente dúvida no passado e atordoamento no presente como Dom Casmurro, devo dizer que Bentinho é bem mais convincente. Se não há uma desconfiança inicial, ele quase nos convence da traição de Capitu. Mas daremos créditos a Graciliano Ramos: Bentinho era advogado e a todo momento Paulo Honório nos diz que não sabe escrever, nunca soube.
A decadência interior do personagem fica clara: ele cai em contradição a todo momento. Dorme pensando em matar sua mulher, acorda pensando que é tudo bobagem dele. Sua doença nos é visível. Mas ficamos com ele para ver o quanto ele se engana, se retrai e não consegue se compreender. Ele mesmo diz "não consigo modificar-me, é o que mais me aflinge". Madalena, é claro, não traiu seu marido. Nós leitores, estamos ao lado dela, o narrador é também vilão. Sabemos dos seus desejos traiçoeiros, do jeito que pensa dos outros. Sua alma e suas idéias mesquinhas escancaradas ao leitor, sem privação. Não é um retrato do outro, é o si mesmo revelando-se. E escondendo-se, ao mesmo tempo. E está na omissão a verdade. Como Bentinho. Mas Madalena definha-se, ao final do livro, já é outra mulher, está louca, como não? Escolhe o suicídio. Cheguei a ter raiva, misturado com dó de Paulo Honório, na última conversa. Por que ela não fala, por que ela não diz que não existe ninguém? O silêncio também é sinal de desconfiança, do leitor, de Paulo Honório. A tragédia já está posta e últimas palavras não salvarão ninguém. E Madalena sabe disso.
Madalena é forte feito Capitu. Mas nem tanto. Tem idéias políticas, se aproxima do comunismo. Mas acho que não chega a ser comunista, realmente, tem a bondade de ajudar, tem consciência da injustiça. Capitu vive. Madalena morre, Madalena deixa a vida, não a aguenta. No livro, tem pouco espaço para ela se manifestar. Sabemos o que Paulo ouviu falar dela, sabemos poucas opiniões que não podem ser consideradas da personagem. O leitor não a conhece, como não conhece Capitu. Talvez por isso a Madalena do filme é um pouco apagada. Não deveria, não na minha opinião. E a linguagem é o elemento principal que afasta Paulo e Madalena. Eles não falam a mesma língua, ele não entende do que ela fala. Ele entende pouca coisa além do que concerne ao seu modo de viver. Para no final da vida e do livro, dizer que não valeu a pena esta modo de viver, não havia frutos.
A linguagem, tão bem trabalhada por Graciliano, nos mostra em palavras, frases, sintaxe o personagem. Não é preciso descrevê-lo: ele é bruto, simples, prático, agressivo. Suas frases são diretas, desmente fatos e inventa outros. Faz de um jeito que agrade sua própria imagem à ele. Apesar de monstro, é humano. É o dono do meio de produção, pratica o capitalismo selvagem porque cresceu nele, apurrinhado de dificuldades, mas é assim porque não conhece outro meio. Assusta-se com quem fala de comunismo, mas tampouco o entende. Não podemos isentá-lo completamente: não acha que seus trabalhadores tenham que ter direitos, deixa claro isso inúmeras vezes, não acredita em educação. É o retrato do capitalista mais burro que consciente, embrutecido pela vida. É assim, porque era pobre e cresceu passando a perna nos outros, cresceu porque bateu de frente com a vida, e descobriu ser o único meio de sobreviver. Por ter crescido sozinho, não crê que deva dar coisa sequer para seus trabalhadores. Eles também devem crescer às próprias custas... mas sabe que não crescerão. Ele não poderia deixar, porque se não passariam além de sua posição. Isso não poderia. É o capitalismo retratado com humanidade, materialista. Contraditório e enriquecedor retrato.
O filme deixa escapar questões da revolução, mas muito me agrada as câmeras fixas, as sequências longas. Paulo Honório é assim: fixo, longo. Não há movimentos em um ambiente que não aceita transgressões. Admiro ainda ainda mais o filme, embora tenha subtraído uma porção de coisas interessantes, como a revolução. Poderiam ser bem apropriadas, mas também, o filme foi feito em plena época de ditadura militar. E o livro, ditadura varguista.
Por fim, deixou uma dúvida. Casimiro Lopes é o único que Paulo gosta. Por vezes, o chama de cão. Mas também confundira sua própria pessoa com a de Casimiro. Ele é um servo fiel, o assassino de Mendonça, guarda em silêncio todas as brutalidades de Paulo Honório. Estará sempre ali, e não reclama de nada, "não tem opiniões". E some no final do livro. Seria Casimiro o próprio Paulo? Teria que reler para ver se Casimiro tem contato com os outros. Casimiro seria o animal, o bruto calado que mora dentro de Paulo, externalizado, para que ele possa conseguir viver, mesmo sendo tão estúpido. Um cão. Pode ser tanto um servo, como um pedaço da mente e alma perturbada de Paulo. Não sei, apenas me ocorreu, enquanto lia.
Por hoje, chega. Falo apenas do curioso nome do cachorro de Paulo: Tubarão. Como a Baleia. Nome de peixe, do mar, para a cachorra. Curioso, não?
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
sábado, 16 de janeiro de 2010
lemon tree

não, não é a música do oasis, se é que alguém pensou nela, além de mim. quando eu via a chamada para este filme no telecine, me lembrava O Barato de Grace. podem me destruir depois dessa confissão, eu sei...
acabo de descobrir meu fraco para filmes: são aqueles mais regionais, e por isso mesmo, universais. não é à toa que à embaçada pergunta dos veteranos de audiovisual na festa pré-bixo sobre meu filme preferido, eu respondi Meu Irmão não é Filho Único. O forte regionalismo das duas facções políticas extremistas italianas, o facismo e o comunismo, que vão se aprofundando nas complicadas relações humanas que não podem ser classificadas por nenhum 'ismo', com direito a amores estranhos para distrair os corações. Tcharam! isto é Lemon Tree. troquemos as facções políticas para o conflito étnico-religioso-territorial mais polêmico do mundo: Israel x Palestina. tudo isso sob o olhar de um inocente pomar de limões. a resenha, simplista e irritante, diz que há um pomar de limões entre a nova casa do Ministro da Defesa de Israel e a casa de uma árabe, Salma. logo, o pomar vira controvérsia, com Israel dispondo toda sua força para o destruir, contra a força mínima de uma viúva determinada para o preservar. esta viúva conta apenas com o seu advogado para ajudá-la, um rapaz que estudou na Rússia e lá deixou uma filha, mas que parece solitário. nem os palestinos ajudam Salma, indo importuná-la somente pela iminência do romance com o advogado que tem a idade do filho de Salma. romance este, moldado em uma situação estranha, e bem possível de acontecer. eu peco pelos romances - desculpe minha alminha feminina criada à desenhos da Disney e comédias românticas pré-adolescentes - e este fez meu coração bater mais forte, embora tenha apenas um beijo no filme todo. (mas como diria uma amiga minha, quanto mais romantico o filme, menos beijos tem). mas bem, chegamos desse mimimi de menininha e vamos aos fatos concisos:
quando digo que o filme se aprofunda nas questões humanas, quero dizer que mostra que existem humanos por trás de qualquer causa política. quero dizer, que entre um muro, existem pessoas, que sentem, e que não ignoram a existência do outro, mesmo dificultada. este ponto é reforçado pela relação silenciosa da mulher do Ministro da Defesa, Mira, e Salma. seu marido, como nunca está em casa, não conseguiria sentir o que aquelas separações ideológicas provocam no íntimo do ser. Mira, que simpatiza com o pomar desde o início, vê a mulher do outro lado, e vê seu sofrimento, porém, não consegue ir muito além para ajudá-la. não sabe como agir, e o seu passo decisivo de mostrar aos jornais sua verdadeira opinião é retificada sob mando do marido. o fim é claro: Mira seguirá sua vida, depois que um portão construído tampa a visão que atormenta sua consciência. este embate pode estar ligado à qualquer relação de um israelita com um palestino, sem conseguir se comunicar, mesmo querendo. isso é muito claro no documentário genial Promessas de um Mundo Novo. mas este assunto tem muito pano pra manga para eu dissertar em um simples post, então passemos a um último aspecto.
o limoeiro: o limoeiro não está ali como objeto de cena, e não é só pretexto para levantar discussões a cerca da luta dos palestinos. os limoeiros são defendidos, no tribunal, de maneira singular. o próprio Ministro da Defesa defende-os (han han) dizendo que deve-se tratar as àrvores como pessoas (mas não tem dó dos palestinos que mata, né, filhodaputa, opa desculpa, opinião parcial demais). enfim, eu sempre tenho uma dúvida, que é como tratar temas ecológicos sem ser chato como aquele documentário do Al Gore, Uma Verdade Inconveniente, nem catastrófico como... Um Dia Depois de Amanhã. os dois jeitos são muito apelativos, e isso me enoja. eu sei que a defesa dos limoerios não é para ter efeitos ecológicos. mas o jeito que se encaixou no filme, fez-me florescer algumas boas idéias para enfiar estes conceitos em narrativas humanas e mais reais. enfim, no contexto do filme, remete-se à tradição arreigada à uma família e... às emoções. Deus! o que é um mundo se não nos apegarmos uns aos outros, hein? precisamos mesmo de sentimentos, mesmo que seja pelos limoeiros.
e talvez, quem sabe, chegaremos à ter sentimentos por aquele que é diferente do nosso mundo.
(e não, o filme não tem final feliz. como diz o advogado "não estamos num filme americano, os finais não são felizes". o final é... desolador. indiferença, traição e... bem. assistam!)
fica na minha lista de melhores.
domingo, 10 de janeiro de 2010
pai
como é ligar pro seu pai num domingo preguiçoso como este e ele estar bêbado, hein?
por isso este blog tem nome de mãe, e não de pai.
por isso este blog tem nome de mãe, e não de pai.
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